Thursday, March 17, 2016

Quinta-feira, 17 de Março de 2016


Acho que os meus ombros estão em carne viva

Rosa
Bem feito. Você não quis botar almofadinhas, como eu disse.


(Convicto.) Não era direito. Quando eu fiz a promessa, não falei em almofadinhas.

Rosa
Então: se você não falou, podia ter botado; a santa não ia dizer nada.


Não era direito. Eu prometi trazer a cruz nas costas, como Jesus. E Jesus não usou almofadinhas.

Acho fascinante a crença e tradição de fazer e cumprir promessas para certos santos. Tendo trazido a cruz sessenta léguas de pé, nas costas, o Zé aqui diz que seus ombros estão em "carne viva." Que dolorosa sua promessa e dedicação.
Embora essa forma de praticar sua religião seja muito diferente de minha cultura, tenho muito respeito pelas pessoas que possuem tal vigor espiritual.

Thursday, March 10, 2016

Quinta-feira, 10 de Março de 2016

               Cilada Verbal

Há vários modos de matar um homem:
Com o tiro, a fome, a espada
Ou com a palavra
                    --envenenada.
Não é preciso força.
Basta que a boca solte
A frase engatilhada
E o outro morre
                    --na sintaxe de emboscada.

         (Poema de Affonso Romana de Sant'Anna interpretado na roda de poemas)


Não podemos esquecer qual efeito nossas palavras têm nos outros. Neste poema affonso de Sant'Anna assevera que as palavras até têm mais impacto e mais capacidade de destruir do que a própria força e poder.
Assim percebemos porque devemos pensar antes de falar. Mas por outro lado, da mesmo forma que palavras têm poder para ofender e destruir, também podem encorajar, persuadir, e elevar. Usemos nossas palavras pelo bem.

Thursday, March 3, 2016

Quinta-feira, 3 de Março de 2016

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

(Autopsicografia, Fernando Pessoa)


The poet is a fraud
He fakes so thoroughly
That he comes to believe his pain
Is the grief he surely feels. 
And those who read his words,
Feel the pain he tried to convey, 
Not the deep and double sorrow in his heart,
But the pain that would never be theirs.
And thus on its turning wheels
It rolls on, containing the reason,
This counterfeit train of chords
That we know as the heart.

O poeta quer se expressar de uma forma emocionante e dolorosa, mas por vezes nem possui estes próprios sentimentos. Nós, como leitores, engolimos este material. Ficamos inspirados. Sentimos coragem. Queremos ser mais. Sentimos dor. Tudo maquinado pelo coração 

Thursday, February 25, 2016

Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2016

                  ovo
        n   o   v   e   l   o
    n o v o   n o   v e l h o
 o  f i l h o  e m  f o l h o s
n a  j a u l a   d o s  joelhos
 i n f a n t e  e m   f o n t e
    f  e  t  o      f  e  i  t  o
          d e n t r o  d o
                centro

      Augusto de Campos, "Ovonovelo," pág 146


O poema aqui se forma na configuração do sujeito contido em si--um ovo. Assim este poema serve como um exemplo excelente de poesia concreta. Como vemos aqui, as palavras deste poema são manipuladas para que se expressem, pela forma, o sujeito, ou o propósito do poema. Acho interessante que em tal tipo de poema, a configuração do poema toma tanta prioridade, que a forma em muitos casos se torna mais importante do que as próprias palavras.

Thursday, February 18, 2016

Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2016

O morcego

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho. 
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede: 
Na bruta ardência orgânica da sede, 
Morde-me a goela igneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

         (Augusto dos Anjos, O morcego pág 214)


Ficamos, às vezes, despertos--pensando nos erros que pendem sobre nossa cabeça e nos torturam. Não queremos lidar com a culpa, os sentimentos que queimam a mente. Levantamos parede, bloqueamos tal sentimento, tentamos expelir o morcego que bate ao redor da nossa cama e rasga a mente.

Não dá. Pegamos de um pau e lançamo-lo no morcego. Talvez consigamos acabar por matá-lo. Mas enfim, apesar dos esforços, não se consegue se afastar da Consciência Humana. Esse morcego entra no quarto, circunda nossa cama e nos acorda toda noite.

Friday, February 12, 2016

Sexta-feira 12 de Fevereiro de 2016

Redação sobre a narrativa curta

Dentro de um restaurante, o narrador observa com desgosto os movimentos e o consumo

de um homem velho, forte e poderoso. Ao observer e tomar nota da forma gulosa em que o

homem idosa consome seu jantar, o narrador assalienta o problema de que seres humanos fortes,

poderosos e influenciais tomam poder e precedência sobre os outros, sejam animais ou outros

seres humanos. O narrador demonstra esta realidade de consumismo abusive ao descrever o

homem corpulento, forte e poderoso, e a maneira em que ele come o seu jantar.

Ao descrever o homem sendo observado, o narrador enfatiza certas qualidades do homem

que denotam figuros de poder. Ele observa que o homem “era alto, corpulento, de cabelos

brancos, sobrancelhas espessas e mãos potentes. Num dedo o anel de sua força. Sentou-se amplo

e sólido” (Lispector 1). Neste observação, o narrador focaliza na descrição do homem velho,

usando palavras para sugerir que é um figuro de importância, potência e força. “O anel de sua

força”—um pequeno detalhe que diz tanto sobre a posição social do homem. Assim com

observações simples mas descritivos, o narrador estabelece o caráter de um consumidor.

Depois de estabelecer que o homem observado é um figure de poder e significado, o

narrador observou que ele “virava subitamente a carne de um lado e de outro, examinava-a com

veemência, a ponta da língua aparecendo — apalpava o bife com as costas do garfo, quase o

cheirava, mexendo a boca de antemão” (Lispector 1). Bem focalizado na comida, o homem

guloso nem pensa naquilo que está a comer, nem nas consequências que resultam de suas ações--

a supressão de pessoas menos potentes.

 Esta observação afeta o narrador de tal maneira que mal consegue comer o seu próprio

jantar. Vendo a forma gulosa que o homem comia seu jantar, ele conta que “olhei para prato.

Quando fitei-o de novo, ele estava em plena glória do jantar, mastigando de boca aberta,

passando a língua pelos dentes, com o olhar fixo na luz do teto” (Lispector 2). O homem aqui

não tem qualquer restrição sobre a maneira em que ele se comporta ao comer. A reacção de

repulsa do narrador dá ênfase à gula do consumismo.

Em seguinte, o narrador fica ainda mais pasmado com a maneria em que o homem come

gulosamente. Ele fica repugnado, chocado e até irritado com o homem. Supreendida com a

forma que ele se portava, ele nota que “sua violenta potência sacode-se presa. Ele espera. Até

que a fome parece assaltá-lo e ele recomeça a mastigar com apetite, de sobrancelhas franzidas.

Eu é que já comia devagar, um pouco nauseado sem saber por quê, participando também não

sabia de quê" (Lispector 3). Assim a descrição dele serve como mais um exemplo que fortalece a

ideia do caráter do homem guloso e consumidor. Ele até ficou nauseado ao observer suas açoes.

Ao descrever este homem, o narrrador faz com que o leitor fique com uma ideia tangível de

Mais uma vez o narrador fica com nojo do homem consumidor. O efeito é tão profundo

que ele diz, “Inclino-me sobre a carne, perdido. Quando finalmente consigo encará-lo do fundo

de meu rosto pálido, vejo que também ele se inclinou com os cotovelos apoiados sobre a mesa, a

cabeça entre as mãos" (Lispector 3). Aqui enfatiza -se a justaposição entre a forma de comer do

homem e do narrador. O narrador começa a perceber que não quer que seja associado com tal

homem. No pasmo da cena que o narrador está a observar, ele nem conseque comer o seu

próprio jantar. Assim ele enfatiza a natureza repugnante chocante de consumismo abusivo.

O narrador vem, a um certo ponto, à conclusão de que ele já não aguenta a forma gulosa

deste homem. Ele decide que não quer nada a fazer com este homem. Repugnado, ele diz, “Eu

não podia mais, a carne no meu prato era crua, eu é que não podia mais. Porém ele

— ele comia” (Lispector 3). O narrador enfatiza a maneira em que o homem idoso come em

comparação com o grande desgosto dele. O narradoar vê que já não conseque aguentar este

consumismo mais. Apesar de como suas ações afetam outros, o homem continua a comer e se

Enfim o narrador faz uma declaração dizendo, “Quando me traíram ou assassinaram,

quando alguém foi embora para sempre, ou perdi o que de melhor me restava, ou quando soube

que vou morrer — eu não como. Não sou ainda esta potência, esta construção, esta ruína.

Empurro o prato, rejeito a carne e seu sangue” (Lispector 4). Aqui ele declara que ele já não

aguenta este tipo de consumismo, e dominação sobre os outros. Ele ainda tem dignidade e recusa

Thursday, February 4, 2016

Quinta-feira 4 de Fevereiro de 2016

"O próprio ator interrompe a ação e por fim compreende aterrorizado e a um só tempo a sinistra coincidência da cena e do momento, o que aquele vulto veio anunciar sobre o mundo do lado de fora, com buzinas, motores e sirenes; compreende por que a mulher não apareceu e afinal o que sente o humilde lavrador; compreende por que o diretor não o interrompeu desta vez, porque por fim esteve perfeito na pele do lavrador em sua súplica diante da morte; compreende que por um instante encarnou de fato o lavrador, que involuntária e inconscientemente, por uma trapaça do destino, tornou-se o próprio lavrador pelo que aquele vulto veio anunciar; compreende tudo num segundo." 

(Bernardo Carvalho, Estão Apenas Ensaiando, Página 4)

Acho interessante que este conto mostra a justaposição entre a maneira em que o ator estava a interpretar o papel do lavrador as primeiras vezes, e depois de perceber porque a sua mulher se atrasava e que de verdade estava morta. Assim o conto indica que o arte, sem compreensão e experiência no "mundo de lado de fora," é considerado vazio e plano--sem substância. Mas a vida presta-se a experiência, tragédia, e crescimento e é então que o arte começa a tomar significado para o indivíduo.

Na missão, o trabalho foi duro e as pessoas fechadas e muitas vezes chateadas connosco. Passei muito tempo a andar e pensar. As experiências durante este tempo deixou o meu coração mais macia e compreensivo. Fiquei mais emocionante e durante conversas e lições, percebi que eu não estava  apenas a recitar pontos de uma lição--não era apenas um ator a interpretar um papel--mas sim falava os sentimentos próprios. Assim a vida dá significado ao arte.